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NO REINO DOS PORQUÊS

Uma entrevista super interessante. Na minha opinião é 10.

Educador defende a curiosidade da criança como o melhor currículo de ensino para se praticar em casa e na escola.
Rubem Alves, pedagogo, doutor em filosofia, psicanalista. Nesta entrevista a CRESCER, Rubem comenta idéias que estão em seu último livro, Conversas sobre Educação (Verus Editora, 2003). Mostra como os pais podem ser grandes mestres para seus filhos.
Você critica a escola porque diz que ela se dedica ao ensino das respostas certas e isso é fatal para a curiosidade das crianças, justamente o que as motiva a aprender.Como os pais podem aproveitar melhor essa curiosidade dos filhos?
Educar é provocar perguntas. São elas que desafiam a inteligência. Por 70 mil anos, antes de haver escolas, os pais ensinaram de forma competente seus filhos. E qual era o "programa"? A vida. Não havia prova nem notas. As situações vividas provocavam o aprendizado de forma natural. Agora, com a correria da vida moderna, os pais "terceirizaram" a educação. Contrataram as escolas para educar. Uma das minhas pacientes me dizia outro dia: "Eu não tenho tempo para educar a minha filha". E eu respondi: "Eu nunca eduquei os meus filhos". "Mas como?", ela perguntou admirada. "Eu só vivi com eles", respondi. Porque é nessa convivência que a criança faz perguntas e aprende o que interessa. Só a casa já é um imenso laboratório para ela.
De que forma?
Eu escrevi um artigo com o título Casas que emburrecem. A casa que emburrece é aquela toda certinha, em que tudo está no lugar, não tem fechadura para consertar e a criança não tem permissão para fazer suas explorações. Mas a casa que provoca a inteligência é cheia de tranqueiras, livros, revistas, ferramentas, jogos, quebra-cabeças, livros de arte, objetos inúteis que provocam a curiosidade da criança. Casa que é laboratório, em que a criança vai aprender sobre química na cozinha, por exemplo. Elas adoram cozinhar porque gostam de brincar com o fogo, e assim conhecem os alimentos e suas propriedades, podem viajar pelo mundo da culinária chinesa, italiana, francesa, pernambucana. Numa casa se estuda história, pois cada objeto tem uma história. Estuda-se biologia, porque a vida se encontra em todos os lugares, até nos fungos.
Mas tudo isso não exige mais tempo com os filhos?
Não é uma questão de tempo, mas de interesse. Os pais abandonaram o mundo das crianças. Perderam a capacidade de fazer perguntas, deixaram de se fascinar pelo que vêem. Chegam do trabalho cansados, vão assistir à TV e os filhos vão dormir e acabou. E com isso eles perdem os filhos. Num domingo, eu fui a um parque e vi uma cena que me deixou triste. Era um pai com uma filha. Ela estava no balanço e o pai a empurrava automaticamente com a mão esquerda e com a mão direita segurava o jornal que lia. Pensei: esse pobre diabo ainda vai se arrepender amargamente por ter considerado o jornal mais importante do que a filha. Um dia esse balanço vai estar vazio... São oportunidades como essa que os pais não devem deixar escapar. Nesses momentos é que podem surgir aquelas perguntas de criança: Por que a borboleta voa? Por que o céu é azul e não vermelho? Por que a água fervente amolece a cenoura e endurece o ovo? São coisas interessantes não só para a criança, para os adultos também.
Os pais têm que entrar na brincadeira?
A questão toda é que os pais deixaram de ser crianças. O que faz a criança não é tanto a brincadeira, é a curiosidade. Nietzsche, meu filósofo preferido, dizia que o mais alto grau de maturidade que um adulto pode atingir é quando ele recupera a seriedade que tinha ao brincar na infância. A brincadeira da criança é muito séria, assim como suas perguntas. E, se os pais não sabem resolvê-las, é uma maravilha dizerem: "Meu filho, não sabemos, mas vamos investigar". Assim a criança vai aprender que os pais não sabem tudo, mas que vão tratar de saber: "Nossa, mas como é que você faz essa pergunta? Que fantástico! Vamos tentar descobrir". Aí os pais vão ensinar para o filho a delícia que é pesquisar. Procurar nos livros, navegar na Internet para satisfazer uma curiosidade. Hoje os saberes se modificam rapidamente e o principal é saber pesquisar. Mas, para que tudo isso seja divertido, é absolutamente essencial que os pais se interessem pelas perguntas de seus filhos e que as crianças percebam que eles não são detentores da verdade. Assim podem ser amigos, compartilhar as descobertas.
Esse aprendizado não pode gerar conflitos com o que a criança aprende na escola?
O conflito faz parte do aprendizado. Vou dar um exemplo. Minha filha estava no primário - eu ainda falo primário, mas agora é ensino fundamental. Ela tinha dificuldades com um problema de matemática. Fui tentar ajudá-la e comecei a fazer um raciocínio diferente. Ela disse: "Não, papai, tem que ser do jeito da professora". Eu argumentei que há muitos caminhos para se chegar a um determinado lugar, mas ela insistia no caminho da professora. Estabeleceu-se um conflito. Não consegui ensinar a matemática. A professora triunfou, mas até hoje minha filha é ruim de matemática.
O que você aprendeu com essa experiência?
É o que estou sempre tentando transmitir aos pais e professores: que o aprendizado se revela na capacidade que tenho de fazer alguma coisa e não repetir respostas. Aprendi a fazer uma moqueca quando faço uma moqueca, aprendi a ler quando consigo ler. É uma competência ligada a uma necessidade da vida. Agora, esse saber que é pedido no vestibular não dá competência alguma.
Mas é o que ensina a escola...
Nesse assunto, já disse e vou repetir: Os pais, hipnotizados pelo vestibular, tornaram-se os maiores inimigos da educação. Só querem que os filhos passem no vestibular. Não querem saber o que aprendem. Pode imaginar um adolescente que vive em uma zona de violência tendo que aprender quais são as enzimas que entram na digestão? O que ele faz com isso? Perde o interesse em aprender e quer simplesmente o diploma. Outro dia eu via umas tirinhas do Calvin. O pai o repreendia por causa de suas notas baixas. "Você precisa estudar!", diz o pai. E Calvin: "Eu não quero estudar". "Mas você gosta tanto de ler sobre dinossauros", observa o pai. "É, eu gosto", diz Calvin. "E por que você não gosta de ler na escola?", pergunta o pai. "Porque lá não tem livro sobre dinossauro". É tão óbvio. Na escola não tem as coisas que interessam as crianças.
Por que a educação ficou assim?
Porque os adultos abandonaram o mundo das crianças. Aí tudo fica chato e elas começam a perder a curiosidade que motiva a aprender, o encantamento natural que têm com todas as coisas. Com a concha vazia do caramujo, a teia de aranha, o arco-íris. Dessas experiências da vida vem a curiosidade e o aprendizado. E ser curioso não tem fim. É uma coceira que dá na cabeça e faz a gente viajar em todas as direções.
Como saber se o filho está numa boa escola?
Para mim, só existe um critério: se a criança sente alegria em ir à escola, se sente saudade de lá. Porque aprender é muito divertido e é só com prazer que se aprende. Aprendizagem sofrida é logo esquecida.
Fernanda Portela - Revista Crescer - nº. 118 - setembro 2003
fonte: psleo

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