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Com a palavra, a palavra

Com a palavra, a palavra
Gabriel Perissé

Ler, pensar e escrever

- Eu já estou aqui, amigos, posso apresentar-me?
- Caros leitores e ouvintes, como vocês acabaram de ouvir e ler, a palavra chegou e deseja dirigir-nos algumas palavras. Podemos lhe passar o microfone e dar-lhe nossa atenção?
- Sim!
- Apoiado!
- Manda ver!
- Você viu a resposta do povo, querida palavra. Portanto, fique à vontade. Somos todos ouvidos.
- Obrigada.
- Não precisa agradecer, estamos apenas reconhecendo que o espaço lhe pertence.
- Mesmo assim gostaria de agradecer infinitamente. Não é sempre que recebo tão calorosa recepção.
- Como assim?
- Palavras o vento leva, meus amigos, e como tem ventado ultimamente! Mais do que eu gostaria. Sou levada para lá e para cá, sem rumo, sem destino, sem volta. Meus amigos, palavras entram por um ouvido e saem pelo outro, e nesse curto trajeto mal conseguem deixar uma semente que venha a brotar um dia, mal conseguem deixar um vestígio significativo. E, em suma, a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, de modo que sempre estou em desvantagem no mercado presente e futuro.
- Que palavras pessimistas!
- Não se preocupe, estas palavras já voaram também, só a escrita fica.
- Mas a escrita é feita de palavras!
- Hoje em dia, contudo, até na escrita fica o dito pelo não dito. Por isso, meçam suas palavras, meus amigos! Mais vale o dinheiro do que muitas palavras antes ou depois, mais valem as segundas intenções expressas sorrateiramente do que as palavras no seu sentido cabal, abertamente pronunciadas.
- Minha cara palavra, por que tanta amargura em suas palavras?
- Palavras doces enjoam depressa. Palavras morrem pela boca. Palavras de fogo tornam-se cinzas inúteis, que o vento leva... Palavras comuns se perdem em qualquer lugar. Palavras extraordinárias ficam na beira da estrada.
- Mas sem a sua voz, que graça terá a vida se nós sobrevivemos graças às palavras?
- Não digam isso. Pensem duas vezes antes de falar ou escrever! Não levem tudo o que eu digo ao pé da letra! Lembrem-se de que para bom entendedor meia palavra basta, e que bastam algumas palavras para dizermos tudo.
- Como são enigmáticas as suas palavras, prezada palavra!
- Nem tanto. Palavra puxa palavra! Mais cedo ou mais tarde a verdade vem à tona. E outra: as palavras, como as abelhas, têm mel e ferrão!
- Seu discurso deixou-nos sem palavras!
- Sei que essa frase sua é apenas força de expressão...

Fonte : KPLUS
Matéria publicada em 01/12/2002 - Edição Número 40

Um comentário :

Luma disse...

A palavra sabe que para ela existir, transmitir emoção, precisa de uma outra palavra, a não ser é claro, que essa palavra seja um adjetivo. Mas daí é fácil ser palavra. Beijus

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